Hoje eu vou postar um textinho que eu escrevi na última eleição, no primeiro turno. Algumas coisas deixaram de fazer sentido com o tempo, outras passaram a fazer muito mais:
Aquele cartãozinho esverdeado finalmente vai sair da carteira, para dar a alguém um salário de milhares de reais e uma carga imensa de responsabilidade. Nesse domingo chuvoso o nosso dever cívico vai acertar as contas com os manda-chuva do Brasil, e aqueles números seguidos da agradável melodia monofônica vão mostrar o que realmente valem.
Os santinhos na rua, os cartazes na parede. Tudo proibido, claro, mas quem melhor que eles para ilustrar esse dia ritualístico que é a eleição? Também tem a colinha, as filas, os politizadores com megafones, tudo na mais harmônica desordem. Em 9 horas de eleição, quase todos os brasileiros com idade entre 18 e 65 anos saem de suas casas, ficam repassando mentalmente o número de seus candidatos enquanto esperam por sua vez e saem realizados, com um sentimento de “missão cumprida”. Não mais comprida que a fila que tiveram que pegar, mas isso faz parte.
Apesar de todos esses atrativos, o ponto alto desse dia de votação é quando os figurões da televisão e da política comparecem às urnas, evento que (claro) é transmitido para todo o Brasil, como se o voto desses seres especiais fossem valer mais do que os do humilde operário que vota na mesma seção.
Antigamente existiam as chamadas “eleições do cacete” (com o perdão da palavra, mas é o nome que recebia) nas quais alguns comparsas do político mais poderoso ficavam observando o voto do cidadão, para no caso de ele votar “errado”, o pobre homem ser punido a pauladas. O índice de aprovação dos candidatos era quase unânime, por coincidência. Hoje não é muito diferente, já que o tal do “voto secreto” perdeu seu segredo e mistério há tempos, e os amigos e familiares sempre vem com a famigerada pergunta: “Vai votar em quem?” As reações à resposta são das mais variadas. Suspiros, exclamações, cabeças balançando em desaprovação. Em casos mais extremos, brigas de família e nomes riscados do testamento.
A ida ao posto eleitoral, a expectativa, a espera ansiosa pela apuração. Aí vêm as primeiras parciais: irrelevantes, apenas 5,8% dos votos foram computados. Bate o desânimo, a fome, o sono. Alguns, é claro, acompanham até o fim da contagem, mas a maioria sucumbe ao ao cansaço e vai dormir. No dia seguinte o jornal já acusa o resultado tão aguardado. O doce sabor da vitória! A amargura da derrota, ou até mesmo a surpresa de um segundo turno, perigoso, mas promissor.
Todas essas emoções e acontecimentos nos deixam orgulhosos no fim do dia, por saber que vivemos todos sob o estandarte de uma mesma nação, e que por mais que as opiniões se colidam, que os gostos não se misturem, ainda assim saberemos que dentro de 4 anos começará tudo de novo. E tudo igual.”
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